TIMOR-LESTE/LOROSA’E – MEU CONTRIBUTO PARA A NOSSA HITÓRIA

A HISTÓRIA DE GREGÓRIO HENRIQUE

“TIMOR-LESTE/LOROSA’E – MEU CONTRIBUTO PARA A NOSSA HISTÓRIA” pretende ser um espaço para que cada timorense, todos os timorenses e não apenas os grandes heróis, conhecidos e reconhecidos nacional e internacionalmente, possa partilhar com os outros o pouco ou muito que fez pessoalmente ou com a família para a construção da nossa HISTÓRIA: o que fez antes do “verão quente de 1974-1975”; o que fez durante os 25 anos de luta pela autodeterminação e Independência; o que continua a fazer desde o Referendo de 30 de Agosto de 1999 ou desde 20 de Maio de 2002. Consideramos também timorenses todos os amigos que, identificando-se connosco, têm estado connosco, desde sempre, antes, durante e após a nossa INDEPENDÊNCIA.

“A HISTÓRIA DE GREGÓRIO HENRIQUE” é a terceira deste projecto. A primeira foi a do Abílio Araújo, que veio de pois a publicar a sua “Autobiografia DATO SIRI LOE II”. A segunda foi a foi a do Paulo Pires – “TIMOR – LABIRINTO DA DESCOLONIZAÇÃO.

GREGÓRIO HENRIQUE tem duas obras para publicar: Sua História e o Processo da Autodeterminação e Independência; POESIAS. A nossa esperança é que, em breve, alguma Editora possa colaborar e cooperar para a publicação destas e doutras obras.

 

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CONVITE

A COCC TD2012 tem o prazer de convidar todos os conterrâneos e amigos para uma MESA-REDONDA, tendo como centro A HISTÓRIA DE GREGÓRIO HENRIQUE.

DATA: 27 de Julho de 2013

HORA: 15h30 – 17h30

LOCAL: Centro Social Paroquial do Calhariz de Benfica, Rua Mariano Pina 10A, Lisboa

TÓPICOS

MESA REDONDA, 27-JULHO-2013

1. Sentido de Combatente e Resistente

2. . VERÃO QUENTE: 1974-1975

2.1 – O surgimento dos Partidos Políticos

2.2 – O golpe da UDT, na noite de 10 de Agosto de 1975

2.3 – O contragolpe da FRETILIN, em 20 de Agosto de 1975

3. Infiltrações indonésias

4. Invasão Indonésia e retirada do Governo Português

5. A minha participação na luta

5.1 – Tilomar e Suai e as investidas das forças indonésias

5.2 – Na Resistência Armada

5.3 – Retirada para com a população para monte de Taroman, em Fohorém

5.4 – Ofensivas e novos cercos indonésios de aniquilamento que só viriam terminar em Matebian nos princípios de 1979

— Depois do aniquilamento do monte de Matebian, só mais tarde é que a Fretilin e as Falintil sob a iniciativa de Xanana Gusmão e outros seus companheiros começaram a

5.5 – Encontro com o Sector Ponta Leste, onde se encontravam Xanana Gusmão, Taur Matan Ruak e outros, o último reduto da Fretilin.

5.6 – Primeiro o cerco indonésio -de Taroman

5.7 – Segundo o cerco de Lolotoe

5.8 – O cerco de Zumalai

5.9 – De Zumalai conseguimos sair para o sopé de Ramelau (Uskain)

5.10 – Em Ai-Ede, quase no cimo de Ramelau, uma das Bases da Fretilin, sofremos novos cercos e novos ataques terrestres e aéreos – mais perdas de vida

5.11 – Minha captura em Matebian

5.12 – Captura do Xanana Gusmão e dos meus companheiros de Rede – Caetano Guterres, Albino Lurdes – e prisão de Cipinang.

5.13 – Êxodo para Portugal

ADIANTANDO ALGUMAS COISAS

1. O Combatente é uma palavra abrangente. Abrange a Luta Armada e também a Resistência, isto é, combate nos palcos de guerra que, muitas vezes, exige a própria morte, mas também se resiste ao inimigo. Os postos dos combatentes podem ser assaltados noite ou dia, na maior parte das vezes, de surpresa, sobretudo, à madrugada, quando os nossos estão a descansar do sono. Outras vezes, os nossos combatentes é que assaltam os postos inimigos ou fazem-lhes emboscadas a fim de os empurrar para mais longe das áreas controladas para que a população possa viver ou produzir em paz. Se lhes impuserem mortes e/ou feridos em números elevados, baixam-lhes a moral porque também eles têm amor à vida assim como amor às suas famílias.

Além disso, também resistem a fome, a doença, o frio, o calor, as chuvas, a falta de médicos e medicamentos, a falta de assistências humanitárias e de muitas outras coisas…

2. O Resistente, mulheres, homens ou jovens, podem estar no seio do inimigo, trabalhando com este disfarçadamente, no entanto, apoia a luta em vários sectores: recebe informações da Frente Armada e, através das pessoas da clandestinidade, envia-as para o exterior/Frente diplomática e vice-versa, há outros que fornecem clandestinamente medicamentos ou alimentos aos guerrilheiros, dependendo das suas condições económicas ou financeiras. Mas o Resistente, ao contrário do Combatente, correm mais perigo de vida porque encontram-se no seio do inimigo e, por isso, não tem par onde fugir, como se costuma dizer: entre parede e a espada; e se forem apanhados/das ou suspeitos/as, são presos/as, torturados/as, massacrados/as, e muitas vezes são mortos/as e ocultados/as; outras vezes são dados/as simplesmente como desaparecidos/as eternamente.

3. VERÃO QUENTE: 1974-1975

3.1 Dada a Revolução do 25 de Abril de 1974 operada em Portugal, esta permitiu o surgimento dos Partidos Políticos em Timor-Leste. Os primeiros Partidos a surgirem, eram a UDT que nasceu a 11 de Maio de 1974, logo a seguir nasce a ASDT em 20 de Maio e depois se transformaria em Fretilin em 11 de Setembro do mesmo ano. A seguir nasce a APODETI em 27 de Maio de 1974. Mais tarde nasceram outros dois pequenos Partidos: KOTA e TRABALHISTA mas, estes dois não tiveram maior representatividade porque em termos do número dos adeptos e simpatizantes eram ínfimos em relação aos três primeiros. Contudo, só a UDT e a Fretilin que conseguiram reunir o maior número de adeptos.

4. A APODETI, Quanto a sua pretensão era integrar Timor na República da Indonésia, mas com sua autonomia. E nunca se preocupou de si porque se sentia seguro porque tinha Indonésia à sua retaguarda. Em comparação com a UDT, pelo menos ele sempre foi coerente nos seus princípios do que a própria UDT.

5. A UDT pretendia no seu programa a continuação com Portugal durante mais ou menos 10 anos até que Timor esteja preparado para ser Independente. Mas como algumas figuras públicas em Portugal proferiram que Portugal não tinha condições financeiras para suportar Timor, e por outro lado, a Lei nº 7/1974 de 27/Julho também preconizava a autodeterminação e independência à todas as suas ex-colónias, a UDT coliga-se com a Fretilin em 20 de Janeiro de 1975. Todavia, esta coligação teria pouca duração porque em 27 de Maio quando regressaram de uma visita à Indonésia o vice-presidente e o presidente da UDT, respectivamente, Sr. César Mouzinho e Sr. Francisco Lopes da Cruz, de repente romperam unilateralmente a coligação.

5.1 O Golpe da UDT, na noite de 10 de Agosto de 1975 a UDT desencadeia o golpe e toma de assalto a esquadra militar da PSP, e o comandante, o Sr. Tem. Coronel Magiolo Gouveia não estava na Esquadra da Polícia, nessa altura. Mas ele sabia da ocorrência dos factos, veja o texto integral, e nem se quer tomou nenhuma medida preventiva…

Outro argumento com que a UDT argumentava para a efectivação do golpe era que, encontraram, no avião, um documento pertencente ao elenco que acompanhava o presidente da ASDT, Francisco Xavier do Amaral, quando estes regressavam das comemorações do dia da independência da República de Moçambique e que nesse documento constava que a Fretilin iria desencadear um golpe no dia 15. Mas era um argumento falso e que nunca foi provado.

6. Relativamente a ASDT, esta tinha, na altura, um Manual Programa Políticos que preconizava uma INDEPENDÊNCIA IMEDIATA. Mais tarde, em 11 de Setembro, a ASDT como Partido transformar-se-ia em movimento ou Frente – Fretilin, com vista de mobilizar e abarcar todos quantos desejavam independência para Timor. Todavia, a UDT antecipou o golpe em 10 de Agosto, com a justificação que já foi referida no (nº 5.1). Mas, como os dirigentes da Fretilin já tinham ouvido rumores de que a UDT ia fazer um golpe e que eles iriam ser todos presos, então, retiraram-se antecipadamente para Mota-Ulun e dali seguiram para Aileu pelo que se escaparam. Mas outros, como Xanana Gusmão, Vicente Reis “Sahe” e muitos outros estiveram presos no Palapaço até a sua libertação pelo contra-golpe das forças da Fretilin.

6.1 Não se sabe, se por precaução ou talvez por desconfiança, os 11 militares metropolitanos de Maubisse e os 13 de Aileu ficaram retidos pelos militares timorenses afectos à Fretilin mas, depois, os libertaram logo após as negociações.

6.2 Também os militares metropolitanos em Dili, CCS/QG e do Destacamento de Serviço Material estiveram retidos, mas depois foram libertados e, confinaram-se numa zona neutra/neutralizada junto a messe dos oficiais, perto do porto de Dili.

 

6.3 O contra-golpe da Fretilin, após 10 dias do gTolpe da UD e do caos que se verificava em toda a cidade de Dili bem como noutros lugares, os militares timorenses do CCS/Quartel-General, do Destacamento de Serviço de Material sublevam-se e, além disso, chegam também os de Aileu e Maubisse juntando-se aos de Dili. Estava desta forma espoletada a guerra civil entre as duas forças UDT e Fretilin e a situação estava a deteriorar incontrolavelmente.

6.4 Como a situação estava a deteriorar-se, na noite de 26 para 27/Agosto, o Governo português e os militares metropolitanos retiram-se para a ilha de Ataúro. Com a retirada do Governo Português, a UDT sentiu-se insegura de si mesma e, abandona a sua sede ‘Palapaço’ e foi acampar-se mais lá da parte ocidental, entre Dili e Liquiçá. E a Fretilin persegue-a.

7. AS INFILTRAÇÕES

 

7.1 Muito antes da invasão de 7/Dezembro, nos postos administrativos do concelho de Suai e Bobonaro, eram constantemente metralhadas indiscriminadamente por aviões equipadas de roquetes, aviões esses parecem ser avões comerciais ou Garuda, eu não sei dizer com exactidão porque não os conheço. Para além dos ataques que tinham feito no interior do nosso território junto as fronteiras como sejam: assalto de Suai e Tilomar numa só noite. Ataque de Hali-Lulik, assalto da aldeia de Maudemo, infiltração no antigo Posto de Tilomar etc.

8. A MINHA PARTICIPAÇÃO

8.1 Nos princípios de Setembro, parti de Tilomar para Dili, por um lado à procura da família, por outro tomava parte do contra-golpe integrando-me na companhia do alferes timorense Guido Soares perseguindo os rastos da UDT até Batugadé, e, lá permaneci até ao dia 6 ou 7 de Outubro, quando o Gregório Lobodara, um rapaz universitário que tinha regressado a Timor com os seus colegas, estava gravemente ferido e eu tinha que o levar para Dili.

8.2 De Dili, depois de deixar o Gregório Lobodara no Hospital, regressei novamente para Tilomar onde tinha a minha residência e o meu posto de trabalho, aguentando lá até ao dia da invasão de 7/Dezembro/1975.

8.3 Tilomar e todo o conselho de Suai, embora se localizassem em fronteiras com Timor-Indonésio, as forças indonésias nunca conseguiram tomar, quer por via terrestre-fronteiriça, quer por via marinha ou naval, antes e depois da descida dos paraquedistas em Dili. Era preciso lançarem também paraquedistas em Suai e depois avançam em várias frentes para puderem ocupar Suai e os seus Postos administrativos.

9. A RESISTÊNCIA ARMADA

 

9.1 Depois da tomada do concelho de Suai e os respectivos postos administrativos pelas forças indonésias, eu retirei-me para as montanhas juntamente com as populações onde permaneci no monte de Taroman, em Fohorém, até finais de 1977. A partir daquele momento, começaram a lançar novas ofensivas e novos cercos de aniquilamento que só viriam terminar em Matebian nos princípios de 1979. As Bases da Fretilin estavam totalmente destruídas de Oeste até Leste e, ninguém sabe quem está vivo e quem está morto. Depois do aniquilamento do monte de Matebian, só mais tarde é que a Fretilin e as Falintil sob a iniciativa de Xanana Gusmão e outros seus companheiros começaram a procurar uns aos outros e reorganizarem-se para dar continuidade a luta pela independência.

9.2 E eu, dos finais de 1977 até Abril de 1978, com imensas dificuldades e grandes perigos de vida consegui chegar a Matebian, Sector Ponta Leste, onde se encontravam Xanana Gusmão, Taur Matan Ruak e outros, o último reduto da Fretilin. A última vez que encontrei Xanana, foi numa localidade chamada Lia-Liba, na aldeia do mesmo nome, quando ele foi para resolver uns problemas que existira com o chefe da referida aldeia, Bernardo Pinto.

9.3. Muitos camaradas e companheiros de luta iam perdendo-se pelos caminhos da independência, eu consegui chegar a Ponta Leste, mas quantos cercos eu não sofri e não morri. Primeiro o cerco de Taroman, onde eu e o comandante Francisco Carlos, agora, é deputado da Assembleia em Dili, fomos indigitados para fazer evacuações das populações cercadas no monte de Taroman; segundo, o cerco de Lolotoe, aqui, nós nos já estávamos muito debandadas, isto é, muito dispersas e sem controlo. Depois reencontramo-nos novamente na grande planície de Zumalai, com uns capins (onu, tetun) de cinco ou seis metros de altura, onde estivemos cercados duas semanas ou mais. Os bombardeamentos aéreos e navais eram intensos e incessantes; entretanto outros aviões a sobrevoar-nos lançando panfletos e com megafones a chamarem-nos para rendermo. Mas nós não nos rendemos porque sabíamos que muitos daqueles que se renderam nas primeiras oportunidades, desapareceram todos até hoje em dia. Muitos continuam morrendo e ficando pelo caminho, eu ainda pude assistir a morte, pelo bombardeamento aéreo, da esposa do camarada Comissário Político César Mau-Laca, e ainda conseguimos enterrá-la naquela planície de Zumalai. Da planície de Zumalai eu e mais alguns camaradas e populares conseguimos sair e irmos ter ao sopé de Ramelau (Uskain), andar a noite às escuras, de baixo de chuvas torrenciais de Dezembro, sem um único fio da luz do luar; a bússola da nossa orientação era apenas a lucidez da imaginação para puder calcular ou localizar a direcção para onde seguirmos. Outros continuam perdendo-se pelos caminhos da peregrinação rumo à independência. Em Ai-Ede, quase no cimo de Ramelau, uma das Bases da Fretilin, sofremos novos cercos e novos ataques terrestres e aéreos, mais vidas a perder. E assim sucessivamente, depois de atravessar muitos perigos e obstáculos tais como emboscadas, chuva de bombardeamentos aéreos, navais e terrestres dia e noite inteiras, consegui sobreviver do dito, guerra clássica. Depois da minha captura em Matebian, já nas áreas controladas pelo poder ocupante, no uso da sabedoria natural (não técnico-militar), da imaginação ardil ou diria mesmo estratagema humilde, subtil e disfarçado, consegui sobreviver dos desaparecimentos milagrosos nas áreas ocupadas pelo inimigo, das prisões no interior da ilha ou fora dela. Pois os meus companheiros de Rede, como Caetano Guterres, agora é cônsul na Coreia do Sul, Albino Lurdes, foram parar na prisão de Cipinang juntamente com o actual Primeiro Ministro, Xanana Gusmão, e eu continuei a escapar-me até a minha saída para Portugal, talvez, o destino assim quis para puder escrever este pedacinho da HISTÓRIA que fora feita de vidas-e-mortes.

Laveiras, 8 de Julho de 2013.

Gregório Kaiwai Sala Henrique

Sobre timordi

50-60 em Escola Salesiana de Lahane, Colégio de Maliana, Seminário de Nossa Senhora de Fátima em Dare, Dili, Timor L/L. 1960-1965 em Macau, Seminário de S. José. 1966-1973 em Same, zona Sul de Timor L/L. 1973-1983 em Roma, LIcenciatura em Filosofia e Curriculum de Doutoramento em Filosofia na Universidade Gregoriana. 1983 em Portugal, projecto de vida - Filosofia, professor, Curriculum de Mestrado em Filosofia, Fundação e Presidente da Associação Timorense (AT) entre 1983 e 1985 (criada com objectivo particular de Espaço de Diálogo e de Formação de Quadros Timorenses na Diáspora e no Interior - Sítio: wp.timor-diaspora.com/wp-login.php). Membro da Comissão Política do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT). Organiza e participa nos Encontros e Conferências de Vila Moura (Algarve, Portugal), Melbourne (Austrália) Darwin (Austrália). Lecciona Filosofia no Seminário Maior S. Pedro e S. Paulo em Fatumeta, Dili (Timor L/L) entre 2000 e 2002. Na sequência da dissolução do CNRT em 2002, opta por desenvolver actividades na Diáspora - Defende uma Política de Diáspora; cria Assoicaição Apoio à Diocese de Baucau (Sítio - http://aadb.home.sapo.pt); organiza a comemoração na Diáspora do 10º Aniversário da Independência de Timor L/L; coordena o Grupo COCC 2012 (Comissão Organizadora de Conferências e Congressos com início de actividades em 2011/2012. Com a COCC 2012 organiza o Primeiro Congresso de Sociedade Civil de Diáspora da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e a Lusofonia.
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Uma Resposta a TIMOR-LESTE/LOROSA’E – MEU CONTRIBUTO PARA A NOSSA HITÓRIA

  1. Gentil Fernandes de Carvalho diz:

    You’ve become part of the history of the struggle of the people of Timor Leste

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