TIMOR – Em Memória de César da Costa Mousinho, Vice-Presidente da U.D.T.

 

LANÇAMENTO DO LIVRO: Timor – Em Nome de Augusto César da Costa Mousinho, Vice-Presidente da U.D.T.

HERÓI ESQUECIDOcesarmousinho1

Por: PAULO MOUSINHO, Filho – Paulo Jorge dos Santos da Costa Mousinho

27 de Abril de 2014

 

 

DEPOIMENTOcesarmousinho4

 

O meu pai faleceu quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Tiveram que ser muito marcantes os anos que vivi com ele, para poder hoje ter memória do bom pai e bom homem que foi.

À minha memória vêm sempre as nossas brincadeiras, com carrinhos, bonecos e jogos. Os nossos passeios a cavalo junto à praia, as nossas caminhadas, as viagens de carro (jipe) e avião.

Relembro as suas ausências em trabalho, principalmente quando se ausentava para o estrangeiro e a festa que fazíamos aquando do seu regresso. Lembro-me das predas que nunca esquecia e de toda a alegria que envolvia a sua chegada.

Lembro-me do dia em que fomos todos juntos ao aeroporto de Baucau. Despedi-me dele sem saber que seria para sempre e não consigo deixar de pensar e questionar o porquê de não ter embarcado connosco.cesarmousinho2

Quando tinha 7 anos não compreendi o porquê de ter posto a família a salvo e de ter ficado no aeroporto com um sorriso e um adeus, mas hoje, depois de perceber a importância que o meu pai tinha para aquele Povo, o Amor e preocupação que dedicava ao seu país, consigo entender que a sua opção de ficar, teve a ver com os seus princípios e ideais de vida.

Quando observo a foto tirada no Hospital, imagino o sofrimento, o número de dias que esteve preso a ser violentamente espancado pelos homens da Fretilin. Vejo a contradição e a injustiça de homens que o violentaram, mataram e hoje estão vivos e alguns deles receberam até graças em nome da paz e um homem, meu pai, que em nome de um Povo, da Paz, Entendimento e Diálogo, hoje está morto e o que recebeu em troca foi a Vala Comum e o esquecimento.

Apesar de ausente, o meu pai continuou sempre a estar entre nós, porque a forma como deu a sua vida por uma causa e por um país, faz dele um herói, que todos recordam com saudade.

No seio da minha família, o meu pai sempre viverá como o patriarca, o marido, o pai, o sogro, o avô… Falo dele às minhas filhas, Inês e Leonor Mousinho e conto histórias, que acabam sempre na esperança de um dia voltar a visitar Timor.cesarmousinho3

Durante estes anos de ausência, só uma vez consegui ter um sonho com o meu pai, aproximadamente há 7 anos. Estava a tocar à campainha com um amigo, e quando abri a porta, senti uma alegria enorme, dei-lhe um grande abraço e chorei. Tinha os olhos desfeitos e os óculos a proteger. Embora este sonho reflita o sofrimento que entendo que passou, representa também uma memória bonita do abraço que sempre esperei dar-lhe como homem e o qual não vou nunca esquecer.

Enquanto o meu pai esteve preso, quando líamos as suas cartas, o carinho e preocupação que revelavam a cada palavra, enchia o nosso coração de esperança, como se quem escrevesse pudesse ter a aspiração de dentro de dias voltar a casa. Lembro-me das palavras escritas do meu pais, recomendando à minha irmã para estudar e ser uma boa menina, porque quando ele chegasse, queria ver os resultados… e quando falava de mim, o Paulinho, as suas palavras carinhosas faziam parecer que estava perto e a cuidar de nós, como habitualmente.

Neste testemunho, não consigo deixar de homenagear uma pessoa muito especial para mim, a qual sofreu muito neste processo e foi de outra forma também uma vítima desta guerra, a minha mãe, Olinda Mousinho, que lutou contra tudo e contra todos, que representou muito bem o papel de mãe e pai, que trabalhou sozinha para nos poder dar casa, comida, roupa, brinquedos e ao mesmo tempo dando-nos educação formação segundo os princípios do meu pai. Ela foi e é, sem dúvida, também uma verdadeira heroína da Nossa Família.

Também a minha avá paterna, Inês Mousinho, sofreu bastante a sua falta, defendeu-o e tentou sempre protegê-lo. Considero que a minha avó foi, na ausência da minha mãe, o apoio fundamental para o ajudar a resistir aquele tempo a tantas torturas.cesarmousinho6

Despediu-se dele na véspera da ida para Aileu, local onde foi executado e o último gesto que recordava do filho, era a camisa branca manchada de sangue que ele lhe entregara aquando da despedida. Foi uma mãe corajosa, que nunca abandonou o filho e acompanhou o seu sofrimento ate à morte.

Por fim, a minha avó materna, Cândida Soares, que também o admirou muito e ajudou a cuidar de nós na sua ausência.

Herdei do meu querido paizinho a bondade, o respeito e preocupação pelos outros… e o benfiquismo.

“Pai, descansa em paz… serás sempre o meu Herói”cesarmousinho7 cesarmousinho8

 

 

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O AUTOR DO LIVRO: Rui Brito da Fonsecacesarmousinho5

“Rui Brito da Fonseca cumpriu entre 1973 e 1975 o Serviço Militar em Aileu, Timor Português. Encontrava-se de licença de férias na metrópole quando se deram os acontecimento de Agosto de 1975, não mais regressando à Meia-Ilha, senão em Dezembro de 1999 como um dos coordenadores  da Missão Humanitária de Portugal em Dili em 2005/6 assessor par a cultura no MNE de Timor-Leste” (Idem, Ibidem, pág. 215).

 

 

Alberto Araújo

NOTAS A PROPÓSITO

Reiteramos as nossas vivas felicitações pela publicação do livro, que não permitirá que seja  votado ao esquecimento o homem, a pessoa, a acção, a memória do irmão, que conhecemos no dia-a-dia por: Administrador César Moutinho. Como podem testemunhar as fotos, o evento foi preparado com esmero e com todo o carinho e a numerosa presença, sem falar daqueles que não puderam estar presentes, demonstra bem o reconhecimento que todos têm para com o ilustre homenageado. Embora não tenha sido referido na apresentação, a Embaixada da RDTL em Lisboa fez-se representar por uma das suas colaboradoras da Missão Diplomática. E o Estado português para com um cidadão que deu a vida pela Nação e pelo Povo Timorense, vidas que foram sacrificadas e que tornaram possível um realidade há muito sonhada: Comunidade dos Povos/Países de Língua Portuguesa: CPLP?

De ente os vários depoimentos da família e de amigos, optei pelo de Paulo Mousinho, filho. Foi unicamente pelo facto de ser o filho mais novo, uma criança de 7 anos, que tanto necessitava do para para um desenvolvimento normal e feliz. Foi também em homenagem de todas as crianças de mais ou menos 7 anos na altura, cujos pais ou mães foram assinados pelos homens da Fretilin, da U.D.T., enfim, e se for o caso, de todos os partidos políticos, por outras forças, pelas forças militares indonésias e pelos indivíduos que foram os primeiros responsáveis pela guerra civil e pela subsequente invasão da Indonésia. (Seguem: Comentários. Se estes não estão disponíveis é por um problema na definição do servidor WordPress. Esperamos, em breve, estar resolvida a situação)

 

 

Sobre timordi

50-60 em Escola Salesiana de Lahane, Colégio de Maliana, Seminário de Nossa Senhora de Fátima em Dare, Dili, Timor L/L. 1960-1965 em Macau, Seminário de S. José. 1966-1973 em Same, zona Sul de Timor L/L. 1973-1983 em Roma, LIcenciatura em Filosofia e Curriculum de Doutoramento em Filosofia na Universidade Gregoriana. 1983 em Portugal, projecto de vida - Filosofia, professor, Curriculum de Mestrado em Filosofia, Fundação e Presidente da Associação Timorense (AT) entre 1983 e 1985 (criada com objectivo particular de Espaço de Diálogo e de Formação de Quadros Timorenses na Diáspora e no Interior - Sítio: wp.timor-diaspora.com/wp-login.php). Membro da Comissão Política do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT). Organiza e participa nos Encontros e Conferências de Vila Moura (Algarve, Portugal), Melbourne (Austrália) Darwin (Austrália). Lecciona Filosofia no Seminário Maior S. Pedro e S. Paulo em Fatumeta, Dili (Timor L/L) entre 2000 e 2002. Na sequência da dissolução do CNRT em 2002, opta por desenvolver actividades na Diáspora - Defende uma Política de Diáspora; cria Assoicaição Apoio à Diocese de Baucau (Sítio - http://aadb.home.sapo.pt); organiza a comemoração na Diáspora do 10º Aniversário da Independência de Timor L/L; coordena o Grupo COCC 2012 (Comissão Organizadora de Conferências e Congressos com início de actividades em 2011/2012. Com a COCC 2012 organiza o Primeiro Congresso de Sociedade Civil de Diáspora da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e a Lusofonia.
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6 Respostas a TIMOR – Em Memória de César da Costa Mousinho, Vice-Presidente da U.D.T.

  1. Haverá alguém que não se espante perante o desabafo do Paulo Mousinho, Filho, face ao facto de “homens que violentaram e mataram e hoje estão vivos e alguns receberam graças em nome da paz” e, pelo contrário, o seu pai que “hoje está morto e o que recebeu em troca foi a Vala Comum e o esquecimento”?

    “Mas, para além de se centrar em César Mousinho, esta publicação pretende igualmente homenagear todos aqueles que sofreram os tempos trágicos que Timor viveu nos anos 70 do século XX e ficaram injustamente esquecidos só por apoiarem um determinado partido político que não o vencedor da contenda que foi a Guerra Civil no então Timor Português” (IRui B. Fonseca, Introdução, pág. 9).

    As guerras deixam marcas, traumas, às vezes invisíveis e dificilmente reparáveis, sobretudo nas crianças, mas também nos adultos. Pelo que consta os governantes, nomeadamente o governo do PM Xanana Gusmão, têm tentado ou prometido recompensar não só os ex-combatentes mas também todos aqueles “que sofreram durante os tempos trágicos”. E queremos acreditar que estes não sejam apenas os dos partidos ganhadores nas eleições e em exercício democrático de funções. Mas, os da diáspora timorense têm sido e continuam a ser esquecidos. Depois do Referendo de 1999, três censos já foram realizados e os da diáspora nem foram recenseados nem consequentemente puderam exercer o seu direito de votar e ser eleito.

    Interrogamo-nos tantas vezes como é que os eleitores, sabendo da existência da corrupção e conhecendo até os corruptos e os corruptores pelos seus próprios nomes, continuam, todavia, a votar neles. Será só pela força da disciplina partidária ou também por certo derrotismo ou, pior ainda, por incapacidade de mudar a situação?

    “Mas se, por vezes, é preciso ultrapassar esses pensamentos e dor para se poder tentar viver em sociedade, principalmente quando esta despontou como um novo país, a memória deve guardá-los como lição par o futuro. E não vejo melhor modo para a desejada reconciliação nacional, que o reconhecimento como mártires mortos pela Pária de todos os que sofreram e morreram por Ela, independentemente das facções políticas ou campos de luta” (Idem, Ibidem, À Laia de Conclusão, pág. 200).

    Faço minhas as palavras de Rui B. Fonseca. Creio, porém, que já chegou o tempo de a sociedade civil decidir partir para uma democracia na linha daquela praticada pela nossa democracia tradicional: quando o rei governa contra os princípios estabelecidos, é imediatamente deposto e substituído. O mandato monárquico aparentemente vitalício tem espantosamente inerente esta cláusula. Mas, afirmam os novos democratas que essa democracia monárquica está ultrapassada. Optar por ela é retroceder. Portanto, é necessário deixar que quem governe mal continue a governar até terminar o mandato. E depois, nas próximas eleições, continuar a votar nos mesmos…
    (Continua)
    Albertoaraújo
    09jun2014

    • F. Simões diz:

      Na verdade, quando regressamos para nosso destino, somos sempre abordados pelos que muitos sofreram”viúvas, orfãos, pais etc” olhos marejados de lágrimas abraçamos, sentimos na nossa parte a empatia do sofrimento, visto que o governo de Timor não lhes consideram como filhos da Terra, pois que nada lhes dá como gente do bem. Pior ainda, quando falam dos que deles tombaram por defender a mesma causa(Independência) e sem resposta da nossa parte podermos satisfazer.Ninguém sabe nada de nada, mas também não podemos criticar; podemos enfrentar barreiras infindáveis no nosso procedimente e sem resposta lógica aparente…Caso que o prenúncio do destino vai traçando; o destino do nosso governo, esperemos que não seja para o pior, porque com estes, já foram muitos..Um forte abraço e desculpe se ferir alguém…

  2. Gostaria de saber o preço e as condições de aquisição do livro TIMOR – Em Memória de César da Costa Mousinho, Vice-Presidente da U.D.T., para satisfazer um pedido de cliente.
    Antecipadamente grata pela atenção dispensada, aguardo resposta breve
    Com os melhores cumprimentos
    Teresa Botelho

  3. António Américo Simões diz:

    Julgo ter o livro que procura”Em memória de César da Costa Mousinho, Vice.Presidente da U.D.T.” Passo a ceder-lhe os contactos para melhor obter com brevidade. Tlm. 926 410 472 Tlf. 219 174 773 Com forte abraço lhe despeço.

  4. F. Simões diz:

    Falando do livro ” Memória do Sr. César”,Foi um princípio digno de avivar os acontecimentos do passado, dado que muitos em diáspora sofreram na pele as calamidades dos revolucionários da Fretelin, julgo que o autor do livro deu uma via para que todos possam lançar suas mágoas e sofrimentos, mas tamém de certeza alguns já pautaram nos seus apontamentos algo que seria para lembrar para sempre… Daria uma pista para que todos possam convergir ideias de mutuo acordo e por sua vez fazer o mesmo; seria uma memória qe ficaria para sempre na história de Timor.

  5. Hugo Magno C. Avelino diz:

    Qual foi a Data e local de Nascimento, Falecimento e Sepultamento de Augusto César da Costa Mousinho?

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