LIDERANÇA PROFISSIONAL DA NAÇÃO

LIDERANÇA PROFISSIONAL DA NAÇÃO

“É necessário e urgente formar a nova liderança”: foi assim que, em 2010, D. Basílio de Nascimento, Prelado da Diocese de Baucau, nos solicitou para a Diáspora assumir este DESAFIO nacional. Foi a decisão tomada pelo Estado, pela Igreja e pela Sociedade Civil, no seguimento de um conjunto de “retiros”/encontros realizados em Maubisse, no sopé de Ramelau/Tatmailau(Avô Mailau), a mais alta montanha lusófona.

“Formar a nova liderança” implica, naturalmente, o triângulo de formação: 1. Formar a Liderança da Nação; 2. Formar as Lideranças Nacionais; 3. Formar o cidadão/Cidadania.

A partir de 2013, esse desafio passou a ser assumido, sucessivamente e em primeira pessoa, pela Diáspora Lusófona representada pelas nove Comunidades/Estados e por Goa/Damão/Diu, Macau e Galiza – Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa. Em 19-21 de novembro de 2015, no Salão Nobre da Academia das Ciências de Lisboa, fundaram a PISCDIL – Plataforma Internacional da Sociedade Civil da Diáspora Lusófona – constituindo-se como plataforma de ligação entre a diáspora e o interior das Comunidades/Estados e das comunidades lusófonas espalhadas por todos os recantos do Mundo.

A cada um dos membros da Vice-Presidência da PISCDIL e a cada representante do interior das Comunidades Lusófonas caberá a decisão de apresentar a sua perspectiva pessoal, ao assumir, então-hoje-futuro,  o exemplar compromisso, e pro bono, de, em primeira pessoa,  concretizar este mais alto e nobre desafio: “Formar a Liderança da Nação e formar as lideranças nacionais, com o SONHO de tornar a LUSOFONIA UMA POTÊNCIA MUNDIAL”.

“Liderança Profissional da Nação” constituirá o centro da partilha de perspectivas pessoais das Vice-Presidências da PISCDIL, através de ZOOM, neste próximo dia 30 de maio, dado que que, em virtude da presente pandemia, foi   adiado para 24abr2021 o agendado Debate à Distância em torno de “Gestão de Instituições de Ensino Superior” e a Liderança da Nação, por Rodrigo Lourenço, Instituto Politécnico de Setúbal (IPS).

Da minha parte, falarei simplesmente do genuíno SONHO dos nossos povos de Timor Leste/Lorosa’e. Ou, mais concretamente, vou-me limitar ao Modelo Ancestral Mamba’e de Liderança da Nação, aquele que continuou vivo e actuante durante os mais de quinhentos anos da presença portuguesa/cristã e indonésia e que continua inegavelmente vivo, hoje/2020, apesar de intentos neocolonialistas ou autocolonialistas de alguns agentes da actual fase de refundação da nossa milenar História.

A experiência pessoal, desde a infância até ao presente, responde-me às questões: “Como é que o modelo ancestral de Liderança da Nação continuou vivo e operante até ao presente?” “Continuar vivo hoje e para o futuro significa pretender continuar um povo primitivo, à margem das nações mais avançadas e bem-sucedidas?” Paralelemente aos múltiplos paradigmas dos outros povos, com os quais tenho a dita de poder conviver, tenho optado sempre pelo essencial do conjunto de visões que me foram transmitidas pelos nossos antepassados de geração em geração. Como? – Ser-eu-mesmo, sendo-outro/outros. Quanto mais e melhor conheço os outros (pessoas e povos) mais vejo que somos iguais no essencial e que nos diferenciamos apenas no acidental, isto é, nas FORMAS de pensar, agir, etc.

1. Formar a Liderança da Nação

Sempre Nações e aborígenes/selvagens, antes da chegada dos portugueses à Ilha, os habitantes já estávamos organizados em RINOS.

D. Ximenes Belo, “Os Antigos Reinos de Timor”, p. 17, cita um cronista de 1522:

“O cronista da nau Victoria, da Armada de Fernão Magalhães, o italiano Francisco António Pigafetta, já mencionara nomes concretos de reinos na Ilha de Timor. (Parágrafo) Na sua crónica relata que, em 1522, tinha chegado à costa norte de Timor. Depois de ter estabelecido contactos com os chefes de Amaban e Balibó, a nau dirigiu-se para a costa sul, onde ele anotou a existência de dois reinos de Oebic, Cabanaza (Camanassa), Suai e Lichosam.” (Parágrafo) Sobre o ambiente (do encontro com o chefe de Amaban) Pigafetta  percebeu que o chefe vivia luxuosamente, servido por numerosas servas nuas, todas adornadas com brincos de ouro com ‘borlas de sede pendentes, bom com amuletos de ouro e bronze’, e percebeu que os homens exibiam ainda mais jóias de ouro que as mulheres”.

Nasci muito próximo do início da segunda guerra mundial, cresci e fui educado num duplo ambiente político, onde Portugal tinha passado de Monarquia para República, mas nós continuámos no ancestral regime de Monarquia electiva. Fui vendo, sentindo e aprendendo que herdávamos coisas dos nossos antepassados, dos mais próximos aos mais longínquos do in illo tempore; que tínhamos uma própria visão antropogénica/lógica e cosmogénica/lógica, com base nas quais: organizávamos o tempo e o espaço, do material/físico ao imaterial/metafísico; configurávamos e criávamos princípios e normas práticas e modelos de relações originariamente nossas, modelos relações humanas e de liderança  que apresentaremos a seguir.

Desde a primeira infância tinha a percepção de relações triangulares internas inerentes à nossa família e ao contexto: o triângulo filho-irmãos-pais; o triângulo Knua-Suku-Liurai; o triângulo Umalisan (ritual)-Umakain(genealógico)-Sangue/ADN; análogas relações internas com os outro Reinos – pactos de sangue e pactos de afinidade com os outros reinos coabitantes da Ilha, também estes com congéneres visões de triangularidade relacional; Relações Externas dos com os portugueses e malaes, que consideramos os nossos irmãos mais novos, pertencentes, portanto, estruturalmente às nossas famílias. (Cf. Elizabeth Traube, passim)

Na década da de 50, passei a estudar, primeiro na casa dos Salesianos em Dili, depois no Colégio de Maliana e a seguir no Seminário de Nossa Senhora de Fátima de Dare, Dili, gerido posteriormente pelos Jesuítas; e, na década de 60, passámos a estudar no Seminário de São José de Macau. Foram  instituições nas quais se formavam sacerdotes, mas também, por benefício colateral, também se formou a maior parte daqueles que que vieram a constituir NOVA LIDERANÇA TIMORENSE. (Cf. Jill Jolliffe, p. 29)

Em 1967-73, com o meu colega Áureo Gusmão, cujo pai foi nosso professor na Escola Primária, servindo a Igreja, por um lado, e aos nossos reinos, por outro, trabalhámos simultaneamente com a dupla força política atrás referida, tentando uma cooperação construtiva entre os complexos triângulos de liderança. Concentrando-nos na formação de recursos humanos, económicos e financeiros, começamos a formar Professores e Catequistas, crianças e jovens, e, através de “retiros”, a população em geral. Lançámos as bases para uma visão de REGIONALIZAÇAO, onde cada uma maximizaria os seus recursos humanos e materiais para o serviço interno e para partilhar o excedente com as regiões geograficamente menos privilegiadas – SONHO/UTOPIA de juventude! Neste sentido, melhoramos a plantação de café, obtivemos da Diocese um empréstimo de 10.000$00 (dez mil escudos) para criação de gado, lançámos cooperativas de produção local para proceder à sua comercialização, através de acordos com os comerciantes chineses, aproveitando o vaivém dos seus transportes de mercadorias.

“Em 1969, D. José Joaquim Ribeiro e a Diocese de Díli promoveram a Fundação Bispo Medeiros com vista a fomentarem a formação dos jovens timorenses, porque ele acreditava “proféticamente” que: “[d]entro de 10 anos irá haver uma grande reviravolta em Timor. Portanto, é urgente a formação de quadros timorenses da Igreja e da sociedade civil”. (Cf. Google: file:///L:/Extras/bin/-%20backup%20-%2015nov2016/SÍTIO%20-%2031ago2017/SÍTIO25fev2015/PAI/D.%20Joé%20Joaquim%20Ribeiro/José%20Joaquim%20Ribeiro%20–%20Wikipédia,%20a%20enciclopédia%20livre.html )

Assim, a partir de 1970, no âmbito do referido projecto Fundação Bispo Medeiros, a seguir aos meus colegas anteriores, colegas de Dare e de Macau, D. José Ribeiro mandou-me, em 1973, para fazer o Doutoramento em Filosofia na Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Ao mesmo tempo e a partir desse ano, o Governo Português concedeu, finalmente, bolsas de estudos a estudantes timorenses.   

Em 1974, escreve Barbedo Magalhães, Vol I, p. 161:

“O último governador de Timor Português, Coronel Mário Lemos Pires, considerava que descolonizar era transferir para o timorense a gestão dos assuntos que lhes diziam respeito”

Mas, “timorenses”, para o governo português não era a nossa tradicional liderança. Eram, pelo contrário: os reis vassalos de Portugal, escolhidos e elevados aos mais altos postos militares (D. Ximenes Belo, (Antigos Reinos, p,11); os “assimilados”/civilizados (Luna de Oliveira, Vol. IV, p.321); aqueles com sangue ou mentalidade de topázios/topasses (d. Ximenes, Vol. I,pp165-170; Luna, Vol. I, p. 99; e Frédéric Durrand, Hist. T-L, que descreve assim na p. 59):

“ A partir de meados do século VII, os topasses, uma comunidade de mestiços portugueses e timorenses que viviam em Lifau (Oecussi), conquistaram poder relativamente aos reinos tradicionais. (parágrafo …) Os topasses persistiam muito ligados a Portugal, mas não permitiam que lhes impusessem um governador do exterior. (parágrafo) A instauração pelos portugueses de um tributo pagar pelos reinos, a finta,  por volta de 1703, provocou numerosas rebeliões. (parágrafo) Nos anos 1760, os topasses mataram os representantes portugueses e holandeses. E 1769, o governador português foi forçado a abandonar Lifau, indo fundar uma nova capital em Dili.”

Com efeito, a partir de maio de 1974, (Barbedo, ibidem, p. 162) foram sucessivamente criados partidos políticos (Udt, Asdt/Fretilin, Apodeti, Kota, ADITLA); nos finais de dezembro de 1974, uma autodenominada Comissão Promotora da Reorganização do Conselho de Lautém, apresentou-se para preparar as eleições , que, afinal, foram só realizadas em Lautém, entre fevereiro e maro de 1975, certificadas como legitimamente democráticas por jornalistas e diplomata ocidentaisp.161; que nos princípios de agosto de 1975, quase todas as eleições tinham já tido lugar  na generalidade do território; que “Esta primeira experiência democrática tornou-se num importantíssimo e bem sucedido passo no processo de descolonização que, deste modo, começou a te uma efectiva concretização bem sucedido no processo de descolonização”.

Porém, foi tão “democrática” e tão “bem sucedida descolonização”, que, quase de seguida, tais partidos políticos começaram a desentender-se entre si e a entrar na trágia guerra civil, todo sedentos e determinados a apoderarem-se do poder colonizador, obrigando o governo português  a refugiar-se em Ataúro e a Permitindo/“justificando” a invasão indonésia, com toda as tragédias até ao  massacre do cemitério de Santa Cruz, em 12nov1991, e até à chacina das milícias indonésias em 1999. (Barbedo 159-169).

Sendo verdade a hipótese, o maior mal que os governantes portugueses de então fizeram aos timorenses não foi o abandonarem o território. Foi, sim, terem orquestrado as condições/estratégias para que nós nos matássemos uns aos outros, até reconhecermos que “os nossos irmãos mais novos” nos abandonaram e nos deixaram entregues à aventura de procurar outras sortes. Genial estratégia: Não seriam, então, ele a abandonarem-nos mas, pelo contrário, nós a abandoná-los. Maquiavélico?

Espantosa ironia da História: anticolonialistas que se tornam colonialistas/neocolonialistas! Pretendem fazer, em poucos anos de independência nacional, o que os portugueses não conseguiram em quase quinhentos anos: substituir as essenciais estruturantes de uma história milenar por paradigmas estrangeiras, tudo em nome da modernidade/modernização, do progresso, de novos saberes e ciência, de bem-estar! Substituir Knuas, Sukus e Reinos por Freguesias, Municípios e Governadores. Para tal catalogam o Poder Tradicional de analfabetos, incultos, retrógrados, tiranos, exploradores do povo e de seus bens, tradicionalistas voltados para o passado e sem capacidade de ver o presente, e muito menos de olhar para o futuro, a qualquer dimensão que seja.

1974-75 representou a réplica de 1700.

Modelo de Liderança da Nação

O nosso Modelo Mamba’e da Liderança Profissional da Nação não é uninominal/unipessoal. É colegial e triangular e integrado numa rede/núcleos de multitriangularidades relacionais, geridas por acordos inter e intra partes, assumidos como condição de paz e de cooperação, condição de “viabilidade, estabilidade, capacidade e qualidade” de ambos os parceiros: condição medida pela objectivação dos termos da própria relação através de objectos materiais e imateriais e suas recíprocas dádivas/trocas – obrigações de dar-receber, receber-dar, etc.

Tal modelo é constituído é caracterizado pelos seguintes triângulos: Liurai (Executivo); Lianain/Katuas (conhecimento e ciência); Kukunain (Espiritualidade). Usando os termos do modelo teológico judaico-cristão: são três lideranças iguais e distintas, mas não são três lideranças: são uma e mesma liderança. Como todos os processos de resiliência, a crise ou a captura de qualquer dos ângulos não arrasta a captura dos outros dois e a reposição do todo obedece estratégias secularmente experimentados e aplicados. As autoridades consagradas de qualquer dos ângulos não se expõem ao contacto directo com os alheios, na medida em que são representadas por emissários, rigorosamente instruídos para transmitir apenas o cognoscível e permitir, assim,  que os estranhos possam saber apenas o que podem saber e, em particular, o que e como pretendem saber. Como efeito, ao saber o que e como pretendem saber ficará satisfeita a sua curiosidade sobre realidades e questões multiseculares. Todavia, tudo o que lhes lhes transmitido representava uma frincha a através da qual podem entrever e reconstruir as partes e/o/no todo. Afinal, uma condição tão simples e elementar: dominar as parte não significa natural e necessariamente dominar o todo! Qualquer questão que envolva a Nação, em qualquer das suas dimensões, passa pela análise, decisão e compromisso dos três ângulos.

Entre 2000 e 2002, estando a dar aulas no Seminário Maior Interdiocesano São Pedo e São Paul, na sua reconstrução em Dili, fui apresentar-me à nossa Casa-Mãe, à qual estão incondicionalmente ligadas todas Casas, tanto locais como de toda a Nação Mamba’e, com o propósito de saber o meu lugar e o lugar da nossa família.  Foi-me indicado o preciso e simbólico lugar e nome. Tal como em nossa casa assim beijei as mãos dos Pais de todos, com um profundo sentimento de mim próprio dentro da Casa, isto é do espaço e do tempo fundador e vivo no presente.

Interdita durante o tempo de colonização, dado a sua poderosa importância religiosa e também política, a reconstrução e a consagração da Casa Sagrada, com o ritual de Umalisan, constituiu a primeira manifestação em cada uma das comunidades. A nossa Umalisan só foi possível em 2014. Deixando para outro momento o tão complexo e histórico EVENTO, refiro aqui apenas umas notas para enquadrar a presente questão sobre a Liderança Profissional da Nação. Por suas funções próprias e consagradas, o Ritual foi orientado pelo Kukunain, com a participação dos Lianain e Katuas, dos Liurais e, obrigatoriamente, de todos os pais, filhos, netos, bisnetos, incluindo bebés. No final de sete dias ininterruptos, o Ritual terminou com beija-mão dos Liurais, um grupo por volta de dez pessoas, alguns jovens, outros de meia idade e outros mais velhos. O Novo Poder não foi nem podia ser convidado. A sua presença na cerimónia de encerramento teve o mesmo significado e importância que o antigo Poder Colonizador.

Liderança profissional

Profissional é aquele que desenvolve uma actividade para qual está vocacionado/nascido-para e com formação própria. Amador é aquele que desenvolve uma actividade para a qual não está vocacionado/nascido-para e não tem formação própria no campo, mesmo que tenha um conjunto de diplomas curriculares (Licenciaturas, Mestrados, Doutoramentos, Especializações, Pós-graduações) noutros campos.

A preparação da triangular Liderança da Nação engloba o arco de longevidade geracional, incluindo experimentados critérios de selecção e adequada formação multidimensional. Inicia com a primeira infância e termina com a morte ou com o termo de pessoais condições físicas e eticomorais para o cumprimento das suas funções. Lembro-me que tinha eu por volta de nove anos, quando um grupo de emissários se apresentou em nossa casa, para convidar para a chefia (creio que se tratava de Knua) o meu irmão mais velho a seguir a mim (éramos quatro irmãos e cinco irmãs), por volta de 10/11 anos de idade, nos inícios da década de 50. Por um lado, fiquei satisfeito por os meus pais irmãos não terem aceitado. Com efeito, sentia eu, que era uma exposição complexa ou violenta servir duas lideranças contrárias, utilizando a estratégia de dizer sim quando é sim, e, ao mesmo tempo, dizer sim quando é não – mentiras estratégicas ou diplomáticas.

O sucesso político contemporâneo da secular liderança da Nação, ameaçada por novos poderes e desafiada pela onda de múltipla globalização, exige o adequado conhecimento do passado para a sustentabilidade do futuro: representa uma estratégia perante a qual não é nova para a nossa Liderança da Nação a convicção de John Churchill: “ Quanto mais longe conseguirmos olhar para trás, maior é a possibilidade de olhar mais longe no futuro” (Pensar como Churchill, Daniel Smith, Ed. 2020, 2015, p. 31).

2. Lideranças Nacionais

Sabemos que a Nação/Reino não pode ser concebida sem os seus Sukus, Knuas, famílias, e cada indivíduo. Sabemos, em contrapartida, que, vivendo e trabalhando cada uma das infraestruturas independentemente das outras e pretendendo exclusivamente os seus interesses próprios ameaçam a debilitação e a destruição de uns e de outros.

O sentimento recíproco de pertença à Casa e a Família marca a natureza e o caracter da relação ou do relacionamento entre a liderança da Nação e as lideranças nacionais. Faz toda a diferença o sentimento de que “ele” (interlocutor) é nosso, é um dos nossos. A intuição de que “ele” não é nosso ou não é dos nossos, na medida em que existe fosso/vazio de identificação faz com que nós o tratemos com a maior e a melhor das falsidades, fazendo passar por verdade e por real o que não o é, tanto nas expressões verbais como nas interacções concretas. Pelo contrário, a descoberta da mútua reciprocidade faz com que sejamos tudo ou que demos tudo para ele. A relação entre o triângulo de Liderança da Nação e as Lideranças Nacionais e o indivíduo é de caracter de paternidade, enquanto a sentido contrário de filiação. Daqui o código comportamental de “fraternidade”, irmão. Quem não se encontras nesta dimensão tem dificuldades em utilizar estas expressões. É indicador de diferenciação entre o autóctone e o topaz/sse.

A consciência e o real sentimento de representação explica a recíproca atitude entre a liderança da Nação e as lideranças nacionais e os indivíduos. Está na base do muito oriental beija-mão, inclinação profunda, ajoelhar-se, fazer escolta à pé (hoje diferente) perante a Liderança da Nação. Explica o respeito, a submissão, a defesa a ponto dar a própria vida. Afinal, o triângulo da Liderança da Nação é a minha própria representação, legitimada pela minha opção no momento de eleições nacionais. Sendo um atributo de natureza oficial, é vedado ao empossado renunciar a qualquer das prerrogativas que são próprias das suas funções, prerrogativas que para o estranho são folclore para o turista ver. Na realidade, é o que distingue a liderança profissional da liderança amadora.

Em contraposição a tais sentimentos de representação/representatividade da Nação, as lideranças nacionais são orientadas pela consciência de que faz parte de um todo, assim como os membros e os órgãos fazem parte de um e mesmo corpo. Alguém estima mais uma parte do seu corpo que outra, por exemplo, em termos de saúde e de estética? São relativamente autónomas entre si, mas orientam-se segundo o mesmo paradigma comportamental e social, empresarial e comercial, etc. (Cf. Elizabeth Traube, passim):

“Buti (B) ba rat: nor Meta (M) fe tlut.

Meta (M) ba natou: nor Buti (B) fe naur”:

“B não chega: completa-se com M. M não é suficiente: melhora-se com B. A reciprocidade, a complementaridade e a reversibilidade entre ambos significa e mede a nova realidade que que é criada/produzida com a relação. A ausência da objetividade desta relação é indicadora da relação real, construtiva, transformadora, inovadora, etc., num mundo onde tudo caminha e cada coisa tem o seu próprio caminhar (Sauna mret mret: seu caminhar).

O espaço das lideranças nacionais representa o lugar de todas e quaisquer ONGs, desde partidos políticos a todos os níveis de empreendedorismo, organizações de religiosidade, que representam formas de espiritualidade, organizações sociais, culturais, artísticas, científicas e tecnológicas, etc.

Quando estas lideranças nacionais não se orientam e não conseguem estabelecer entre si o compromisso da elementar relação objectiva e construtiva entre B e M, entram numa competitividade negativa, com consequências igualmente negativas para si próprias e para a Nação.

Knuas, Sukus e Reinos – Regiões e Regionalização – representam pessoas reais e concretas a viver e desenvolver as suas actividades diárias em espaços concretos e em tempos formal ou informal/consensualmente definidos, ou seja, condições espaciotemporais onde têm a sua Casa Sagrada, inspiradora e modeladora da sua casa familiar. Caminham com o caminhar de todas as coisas, onde cada passo mantém a referência ao a-quo (ponto de partida) e ao ad-quem (ponto seguinte e de chegada). Alterar ou destruir esta estrutura triangular é gerar efeitos genocídios identitários e históricos, sociais e culturais; é transferi-las para novas geometrias e novas matemáticas de espaços, traçadas à imagem e pelos intentos e pelas regras e leis daqueles que a transferem e arquitectados para o serviço destes. Esta transferência/transformação tanto pode ser física como mental. Toda a diferença reside no ser ou não-ser da Nação ou ser nacional a estratégia real, dentro dos conceitos definidos.

Enquanto detentores de espaço físicos e temporais de desenvolvimento diário e programado de actividades, Knuas, Sukus e Reinos constituem fontes de desenvolvimento económico e financeiro. Na sua actividade, experimentada durante anos, conhecem as condições de potencialidades e limitações de exploração e seleccionam os meios mais adequados que as novas tecnologias lhes podem trazer, ao mesmo tempo que formam os seus recursos humanos. São autores/actores da competitividade nacional, cujas potencialidade e limitação os próprios conhecem melhor que ninguém. E tudo isto só é possível se for orientado por um PERD (Plano Estratégico Regional de Desenvolvimento) orientado por um PEND (Plano Estratégico Nacional de Desenvolvimento), ambos de Longo, Médio, Curto e Curtíssimo Prazo. Trata-se de evidentemente de uma perspectiva política de REGIONALIZAÇÃO.

Esta estrutura triangular de células da Nação representa e possibilita a competitividade lideranças nacionais. E esta competitividade é dinamizada pelos programas de acividade, tradicionais e novos, conjugados com os referidos PEDs (Plano Estratégico de Desenvolvimento). Acredito eu que o Orçamento Nacional adequadamente atribuído a esta estrutura celular, com grandes, médios, pequenos e micro empreendimentos possibilitará maior, melhor e mais acelerado desenvolvimento que fora dela.

A partidocracia representa tal espaço “fora dela (estrutura triangular celular)”.

A partidocracia nunca teve qualquer espaço na nossa multisecular História. Com o seu sistema quadrienal ou quinquenal de eleições legislativas presidenciais, com alternâncias e alternativa de planos em avulso e sem continuidade, conduzirão a Nação ao máximo nível competitividade com as sua congéneres mais bem sucedidas?  Mesmo com um PED geracional (Plano Estratégico de Desenvolvimento), ou seja, de Longo Prazo, a partidocracia conseguiria melhores processos e resultados? Não teria melhores hipóteses um sistema político baseado nas regiões, suas cidade/sukus e aldeias/knuas, onde cada cidadão tem a sua casa e suas capacidades económicas e financeiras? Onde conduzirão a Nação com as coordenadas ideológicas de uma DEMOCRACIA CAMELEÓNICA de Direita, Esquerda, Centro-Direita, Centro-Esquerda, Extrema-Direita, Extrema-Esquerda, Social, Social-Democrata, enfim, democracias ou suas formas que se excluem umas as outras, na medida em que a disciplina partidária dita que o próprio Partido e os militantes, enquanto  são de um partido não podem ser simultaneamente de outro partido e que deve negar, alguns radicalmente e sistematicamente, o programa político do adversário. Qualquer cidadão pode liderar a Nação. Basta que tenha um ou muito mais diplomas curriculares em qualquer ciência ou tecnologia, que seja um empresário de sucesso, um professor do ensino superior ou catedrático, com experiência governativa (partidária), que seja figura mediática, que prometa mesmo que saiba que não vai cumprir, que seja excelente retórico, etc.

Tal com afirma Churchill:

 “Os governos democráticos avançam sem rumo pela linha de menor resistência, têm vistas curtas, satisfazem-se com sopas e esmolas, e suavizam o trajeto com agradáveis lugares comuns” (Idem, ibidem, p. 99).

As primitivas lideranças triangulares nacionais marcam a diferença entre uma Política real vs uma Política Ideológica.

O desestruturação deste ancestral modelo de triangular de liderança da Nação gera a situação descrita por Manuel Castells, p. 434:

“Neste fim do milénio, o rei e a rainha, o Estado e a sociedade civil estão todos nus, e os seus filhos-cidadãos vagueiam, em torno de uma série de lares adoptivos, à procura de protecção. (Parágrafo). O dissolver da identidade compartilhada, que é equivalente à dissolução da sociedade como sistema social relevante, parece traduzir bem o que se passa no nosso tempo.”

3. Formar o cidadão e a consciência de cidadania.

Com tudo o que foi anteriormente dito, creio que qualquer irmão lusófono, ou não, tem indicadores para saber que tanto a Liderança Profissional da Nação como de cada indivíduo na consciência da Nação e dos seus direitos e deveres nacionais começam com a infância e terminam com a morte

Fiel à sua milenar estrutura de liderança triangular e democrática: Timor Lorosa’e será um REINOS UNIDOS ou REGIÕES UNIDAS DE TIMOR LOROSA’E (RUTL). Não sou o único a acreditar assim! SONHO/UTOPIA?

Afinal, não sou o único a acreditar no nosso modelo triangular de liderança da Nação!

Referências da actual Constituição:

1. Artigo 5º – Descentralização. (Revisão constitucional: de “Descentralização” para REGIONALIZAÇÃO.

2. Artigo 22º – Timorenses no exterior.

3. Artigo 64º – Princípios de renovação.

4. Artigo 72º – Poder local.

5. Artigo 156º – Limites materiais da revisão constitucional: Alínea 2. “As matérias constantes das alíneas c) e i) podem ser revistas através de referendo nacional, nos termos da lei.”: c) – A forma republicana de governo; i) Bandeira Nacional.

(Continuaremos no corpo do Artigo)

O presente texto é a síntese de um Artigo que estou a escrever e que será publicado, logo que uma parte esteja concluída, através de: http://plataformadadiasporalusofona.orghttps://timor-diaspora.org/

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Bibliografia

1. Elizabeth G. Traube, Cosmology and Social Life, Ritual Exchange among the Mambai of East Timor, The University of Chicago Press, 1986.

2. D. Carlos Filipe Ximenes Belo, Os Antigos Reinos de Timor-Leste, Porto Ed.; A História da Igreja em Timor-Leste, 450 anos de Evangelização,  Ed. Fundação Eng. António de Almeida, 2013.

3. Manuel Castells, O Poder da Identidade, Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2003.

4. Jill Jolliffe, Timor Terra Sangrenta, Ed. O Jornal, 1989

5. Barbedo Magalhães, “Timor-Leste, Interesses internacionais e actores locais”, Ed. IPAD, 2007.

6. Luna de Oliveira, Timor na História de Portugal, Ed. Fundação Oriente, IPAD, Lisboa 2004.

7. Pensar como Churchill, Daniel Smith, Ed. 2020, Publito, Braga, 2015.

8. Frédéric Durand, História de Timor-Leste, da Pré-História à Actualidade, Ed. Lidel, 2009.

9. António Duarte de Almeida e Carmo, O Povo Mambai, contribuição para o estudo do povo do grupo linguístico Mambai – Timor, Instituto Superior e Ciências Sociais e Política Ultramarina, Lisboa, 1965.

Sobre timordi

50-60 em Escola Salesiana de Lahane, Colégio de Maliana, Seminário de Nossa Senhora de Fátima em Dare, Dili, Timor L/L. 1960-1965 em Macau, Seminário de S. José. 1966-1973 em Same, zona Sul de Timor L/L. 1973-1983 em Roma, LIcenciatura em Filosofia e Curriculum de Doutoramento em Filosofia na Universidade Gregoriana. 1983 em Portugal, projecto de vida - Filosofia, professor, Curriculum de Mestrado em Filosofia, Fundação e Presidente da Associação Timorense (AT) entre 1983 e 1985 (criada com objectivo particular de Espaço de Diálogo e de Formação de Quadros Timorenses na Diáspora e no Interior - Sítio: wp.timor-diaspora.com/wp-login.php). Membro da Comissão Política do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT). Organiza e participa nos Encontros e Conferências de Vila Moura (Algarve, Portugal), Melbourne (Austrália) Darwin (Austrália). Lecciona Filosofia no Seminário Maior S. Pedro e S. Paulo em Fatumeta, Dili (Timor L/L) entre 2000 e 2002. Na sequência da dissolução do CNRT em 2002, opta por desenvolver actividades na Diáspora - Defende uma Política de Diáspora; cria Assoicaição Apoio à Diocese de Baucau (Sítio - http://aadb.home.sapo.pt); organiza a comemoração na Diáspora do 10º Aniversário da Independência de Timor L/L; coordena o Grupo COCC 2012 (Comissão Organizadora de Conferências e Congressos com início de actividades em 2011/2012. Com a COCC 2012 organiza o Primeiro Congresso de Sociedade Civil de Diáspora da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e a Lusofonia.
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