TIMOR DIÁSPORA – CRÓNICAS

ESTAR NA DIÁSPORA, ESTANDO EM TIMOR LOROSA’E

DO TRATADO DE ADESÃO AO TRATADO DE LISBOA

João de Deus Pinheiro

30out2013acl30out2013a

1. Juntar os melhores ou “os visionários” (Adriano Moreira), reuni-los durante uma semana para pensarem sobre a realidade: realidade do país, realidade de Europa, realidade do Mundo… Marcar reuniões periódicas dos chefes de Estado e do Governo para pensarem e decidirem sobre as grandes estratégias e negociações políticas, tratados e actos congéneres,  entre os Estados Europeus e sua abertura a Mundo…

Foi o que fez Jacques Delors, a figura central do Pacto ou Acto Único aprovado em 1986, no caminho dos Tratados Fundadores da União Europeia.

Não seria esta iniciativa e esta estratégia o caminho para Portugal, ou para a Europa e o Mundo,  se erguerem da actual ou crónica crise e não voltar a cair nela?

1.1 – Um sonho, uma opção estratégica do nosso grupo (grupo da Associação Timorense, em Portugal e na Austrália, criada entre 1983 e 1985 para, entre outros a Formação de Quadros Timorenses, Interior e Diáspora) continua a ser a adesão de Timor Lorosa’e à União Europeia e, neste sentido, a adopção do Português (ou, como prefiro dizer, Língua Lusófona) como língua oficial e o escudo como transição para o euro. Tivemos sucesso em relação à língua, mas fracassámos em relação à moeda. Se a História indica as razões do fracasso, pode também prenunciar razões para o retrocesso face à decisão constitucional sobre a língua oficial. Muitos ( como os colegas do IEAS recordam) afirmam sobre a inviabilidade desta esta estratégia, mas continua a ser o nosso sonho.

1.2 – Quem conhece a fundo a História de Timor, sabe que a ideia ou a estratégia de pacto não é alheia às redes/teias de relações que unem tanto as famílias de um reino como os reinos de Timor Lorosa’e entre si: Pacto de Sangue, Pactos de Aliança, firmados através de actos socialmente visíveis e, em particular, de actos secretos. Quem conhece de perto os 28 anos de luta pela autonomia e independência, sabe também que estas alianças continuaram a funcionar; sabe ainda que estas alianças, mutatis mutandis, foram também firmadas com a Igreja e o Estado Português e com pessoas selectas, como Ruy Cinatti.

1.3 – Desde a independência nacional e cada vez mais nestes últimos anos, à pálida imagem do Acto Único de Jacques Delors,  sinais aparecem no sentido da reconstrução/renovação dos referidos Pactos. Segundo consta, o próprio governo de Xanana Gusmão financia (para que fins?) esta reconstrução/renovação de infra-estruturas sociais e políticas.

1.4 – Face às tentativas dos topázios de sangue ou de mentalidade social/psicológica/política,  camuflados neocolonizadores ou autocolonizadores, o povo analfabeto e pobre parece saber que quem (ou o Estado/Nação) não tem passado, também não tem futuro e, no presente, “estão todos nus, e os seus filhos-cidadãos vagueiam, em torno de uma série de lares adoptivos, à procura de protecção” (Manuel Castells, O Poder da Identidade, Fund. C. Gulbenkian, 2003, p.434). E, em vez da “protecção” daqueles com os quais têm convivido durante séculos e séculos, alguns vagabundos/vagabundeantes estão a preferir aqueles que transformam os seculares habitantes e donos do país em reservas: sim, coisas semelhantes aos aborígenes australianos, aos índios americanos…, coisas perigosas e em vias de extensão, que os direitos universais obrigam a salvar. É espantoso! Como estes anticolonialistas confessos e lutadores se tornam neocolonialistas ou neocolonizadores!acl30out2013b

2. Não será agora o tempo de algum Jacques Delors português reunir os visionários da sociedade civil (já que o partidarismo ou partidocracia, por natureza, se tem revelado impotente ou incapaz!)  para fazerem planos estratégicos de desenvolvimento de longo prazo, planos estes inspiradores de planos estratégicos de médio prazo e orientadores de curto prazo? Não será por esta lacuna estruturante que os governos e os governantes “vagueiam”,  andam “nus” ? Para nós, os restantes membros da CPLP, esses  Jacques Delors seriam  encorajadores.

3. Portugal, “após ter apresentado a sua candidatura de adesão em 1977 e ter assinado o acordo de pré-adesão a 3 de dezembro de 1980” (Adesão de Portugal à CEE, Google, Nov/2013), só em janeiro de 1986 se tornou membro efectivo da UE. Foram nove anos de negociações ou de passagem por um crivo europeu. Explicita ou tacitamente teve que reconhecer todos os anteriores Tratados, Acordos, etc.; e, desde então, tem que se reequilibrar (em alguns casos acomodar-se) dentro dos condicionalismos ou condicionantes europeus. Ao aceitar os Fundos Estruturais (o Fundo Social Europeu (FSE), o Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), assina compromissos de Estado. É o preço da passagem do milenar império ultramarino para o novo “império” europeu. São as consequências do 25 de Abril, preferem alguns. O Tratado de Lisboa, assinado a 13dez2007, vem recolocar Portugal num novo e desafiante patamar. Que este patamar conduza à entrada da CPLP na UE ou à construção de uma congénere União da CPLP (UCPLP). Será um sonho/utopia simplesmente pessoal?

3.1 – Aqueles, declarados marxistas-leninistas, que proclamaram unilateral e democraticamente a independência de Timor-Leste em 28 de novembro de 1975, que fizeram consagrar democraticamente esta data na Constituição Nacional e que governaram o país durante os primeiros quatro ou cinco anos, não tiveram que reconhecer nem os “Tratados, Acordos, etc.” assinados entre o poder tradicional e o poder português. Inteligentemente, fizeram melhor ainda: eliminar o poder tradicional. Inteligentemente, porque, saindo os portugueses, o poder retornaria naturalmente ao poder tradicional. Ora estes topázios de poder não viriam as ser democraticamente eleitos para as chefias de um poder tradicional que tinha resistido à colonização portuguesa e cristã (colonização não é bem sinónimo de colonialismo). A proclamação da independência foi, assim, uma conquista. Ora, em toda a conquista, os conquistadores têm direitos próprios, comuns a todas as conquistas em qualquer parte do mundo. Partir do zero, não o zero deixado pelos militares e milícias indonésios, naturalmente inconformados por terem sido derrotados por um pequeno povo, após quase 25 anos de guerra e guerrilha, apoiados por potências filo-americanas e, explícita ou tacitamente,  por algumas potências europeias, apoiados por sofisticado armamento moderno, por terra, mar e ar, pela propaganda internacional…

3.1.1 – O povo timorense, ao proclamar democraticamente a independência nacional a 20 de Maio de 2002, ao assinalar perante a ONU e a Comunidade Internacional, incluindo a República Democrática da Indonésia, tal como a adesão portuguesa à UE, o histórico EVENTO, também teve que reconhecer todos os actos e documentos oficias da ONU desde a sua constituição entre 1940 e 1945.

3.2 – A ONU, ao terminar a Missão em Timor L/L em 31dez2012, 13 anos desde 1999, deixou o país dentro da moldura política que ela própria contribuiu para ser instalada. Terminou com a consciência de missão cumprida. E, para deixar as coisas em perfeita aparente tranquilidade,  ninguém levantou os problemas subjacentes, como, por exemplo, as consequências de um eventual referendo sobre a Monarquia. O governo timorense, tal como o governo português perante as condicionantes da UE, orgulhoso da sua dignidade,  das suas capacidades políticas e da palavra dada, tem sido exemplar em manter toda a estabilidade necessária, em cumprir os compromissos assumidos. Ninguém colocou questões, por exemplo, sobre facto de um funcionário e cooperante da ONU ou da cooperação portuguesa ou da CPLP, talvez mesmo o menos classificado, ter um ordenado (consta-se) de 5 mil dólares, enquanto a tabela de salário dos trabalhadores timorenses era como apresenta A.M. de Almeida Serra, na sua página do Google “É Economia, Estúpido” (extracto de nov2013):

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Só muito mais tarde, em 2008, os salários foram alterados pelo Governo da RDTL. Nessa ocasião a tabela salarial passou a ser a seguinte:

Como se pode verificar, o salário mais baixo passou de 85 USD mensais para 115 USD e o salário inicial no escalão mais alto passou a ser de 510 USD por mês. ”

Este quadro leva-nos a imaginar quanto fica em Timor do financiamento da comunidade internacional administrado pela ONU e quanto  dessa ajuda volta para os respectivos doadores. Quem não tem intenção de permanecer no país, nem vai investir, nem  vai deixar vai deixar as sua poupanças em bancos sem segurança, nem vai comprar produtos de qualidade comercial, que ainda não podem ser produzidos.acl30out2013c

4. A UE, para afirmar a sua unidade exemplar, deve revelar-se como órgão colectivo na suas decisões tanto económico-financeiras como políticas. Devem falar a uma só foz. Devem ultrapassar as dificuldades de intergovernamentalidade, de acordos entre países maiores e mais ricos e países pequenos e com dificuldades e económicas e financeiras, de livre circulação de bens e capital, de serviços e pessoas. Uma união económica e política pode sobreviver sem uma união de afectos?

4.1 – Por sermos cristãos e letrados, “assimilados” e próximos do europeu, nunca nos foi possível participar nos “estilus”, onde se celebram rituais, se narram mitos e histórias ancestrais, se reactiva a força cosmogénica, a sabedoria e os conhecimentos, onde se revivem e se fazem fluir os rigorosos laços genealógicos e familiares, onde se discutem decisões e estratégias sociais e políticas, etc., os Lia  “Lia Na’in” devem falar a uma só voz, a uma só palavra. Tal como um árvore, a palavra tem raízes que vem dos avós fundadores, tem um tronco e tem os ramos, até às suas pontas e aos rebentos nascentes.  No fluir ou “caminhar” da palavra (caminhar é expressão da visão genuína do grupo étnico mambae): raia ni lolain (o caminhar a Terra; o caminhar da Casa (fada ni lolain); o caminhar da bandeira); o caminhar de todas as coisas (sauna mret mret ni lolain): os Lia Nai’n devem, incondicionalmente, falar a uma só voz. Cada interveniente deve dar continuidade à palavra do seu imediatamente antecedente, e assim sucessivamente até ao último, que deve completar o círculo sem quaisquer roturas.  Uma falha qualquer, que rompa a continuidade implica a exclusão do responsável da linha genealógica, com todas as consequências previstas nas normas definidas e reafirmadas desde os mais longínquos antepassados.

4.2 – É assim que se pode compreender a “cousa mui curiosa nas guerras timorenses. Reinos muito obedientes à praça dão ao mesmo tempo a força pedida pelo Governador e auxílio aos revoltosos. (Este dever, que por cousa alguma n’este mundo os timores deixam de cumprir, torna difícil a prompta aniquilação dos revoltosos. (…) Em Timor todos os reinos são mais ou menos aparentados uns com os outros (De um relatório enviado pelo Sr. Afonso de Castro, Governador de Timor, Anais do Conselho Ultramarino, Parte não official, Série IV, Abril 1863). Assim foi durante os séculos de convivência com os portugueses. Assim talvez tenha continuado a ser durante a resistência à ocupação da Indonésia. Assim talvez possa continuar a ser na resistência à neocolonização ou autocolonização.hohulu131070212

5. Esperemos que um dia algum especialista na matéria venha a escrever ou fazer uma conferência sobre um tema análogo: “DOS TRATADOS CELEBRADOS ENTRE OS PRIMEIROS PORTUGUESES E OS ANTEPASSADOS DOS TIMORENSES AOS TRATADOS DESDE A INDEPENDÊNCIA NACIONAL (20maio2002)”.hohulu31070281boujoaop7070020albdia3Múltipla triangularidade relacional  photoshop_edited-1

AlbertoAraújo

Sobre timordi

50-60 em Escola Salesiana de Lahane, Colégio de Maliana, Seminário de Nossa Senhora de Fátima em Dare, Dili, Timor L/L. 1960-1965 em Macau, Seminário de S. José. 1966-1973 em Same, zona Sul de Timor L/L. 1973-1983 em Roma, LIcenciatura em Filosofia e Curriculum de Doutoramento em Filosofia na Universidade Gregoriana. 1983 em Portugal, projecto de vida - Filosofia, professor, Curriculum de Mestrado em Filosofia, Fundação e Presidente da Associação Timorense (AT) entre 1983 e 1985 (criada com objectivo particular de Espaço de Diálogo e de Formação de Quadros Timorenses na Diáspora e no Interior - Sítio: wp.timor-diaspora.com/wp-login.php). Membro da Comissão Política do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT). Organiza e participa nos Encontros e Conferências de Vila Moura (Algarve, Portugal), Melbourne (Austrália) Darwin (Austrália). Lecciona Filosofia no Seminário Maior S. Pedro e S. Paulo em Fatumeta, Dili (Timor L/L) entre 2000 e 2002. Na sequência da dissolução do CNRT em 2002, opta por desenvolver actividades na Diáspora - Defende uma Política de Diáspora; cria Assoicaição Apoio à Diocese de Baucau (Sítio - http://aadb.home.sapo.pt); organiza a comemoração na Diáspora do 10º Aniversário da Independência de Timor L/L; coordena o Grupo COCC 2012 (Comissão Organizadora de Conferências e Congressos com início de actividades em 2011/2012. Com a COCC 2012 organiza o Primeiro Congresso de Sociedade Civil de Diáspora da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e a Lusofonia.
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