TIMOR DIÁSPORA – CRÓNICAS

ESTAR NA DIÁSPORA, ESTANDO EM TIMOR-LOROSA’E

“Portugal na ONU” – Apontamentos a propósito da Conferência do Prof. Doutor Adriano Moreira, Academia das Ciências de Lisboa – Instituto de Estudos Académicos para Seniores Adriano Moreira (IEAS), 29OUT2013: pensando mais em Timor L/L que em Portugal ou CPLPacl29out2013aaclclaustro2

1. Na 1ª Guerra Mundial morreram 20 milhões de pessoas. Na 2ª Guerra Mundial morreram 50 milhões de pessoas. Durante os 28 anos de guerra civil e de luta pela autonomia e independência, morreram 200 mil timorenses, sem falar dos indonésios e outros intervenientes: quanto terão sido mortos pela Fretilin; quantos pela UDT; quantos pelos indonésios? E quantos pelos portugueses? Quantos autores dessas mortes fazem, hoje, parte da liderança, da chefia e da governação da nação timorense? E não falemos dos outros Estados da CPLP.

2. Após a 1ª Guerra Mundial foi criada, entre 1919 e 1920, com o Tratado de Versalhes, a Sociedade das Nações ou Liga das Nações, tendo como objectivo fundamental assegurar a paz, evitando novas guerras (mundiais). Porém, fracassou, devido a deficiências estruturais no interior da organização e a não ter conseguido resolver os problemas de disputas e invasões territoriais que foram surgindo. Uma organização não pode sobreviver se dentro dela se formarem grupos, como o “Conselho Supremo dos Aliados”, ou líderes, como Hitler, que se sobrepõem ou ultrapassam os restantes.

3. Na sequência do fracasso da Sociedade das Nações, em 24out1945, na Califórnia, foi fundada a Organização das Nações Unidas, assumindo os mesmos objectivos fundamentais da Liga das Nações. Mas, está a fracassar: “O sonho da ONU está a morrer”. A organização não poderá sobreviver se dentro dela começam a aparecer forças que se sobrepõem às restantes, vetos dos “grandes” que não são em função da organização e da humanidade mas ao serviço hegemonias de qualquer tipo; vetos que se sobrepõem às posições dos mais “pequenos”; Estados que tomam a decisão de apoiar ou provocar guerras à margem ou à revelia do Conselho de Segurança da ONU…

3.1 – O caso da descolonização de Timor representa um desses sinais de fracasso da ONU. Morreram 200 mil pessoas, um terço da população total de então.  Os “grandes e mais fortes”(os anglo-saxónicos, através da América e Austrália) e as novas potência emergentes – os BRICs – subtilmente tentam a hegemonia na região Asia/Pacífico. Os “grandes e mais fortes” tentam sobrepor-se aos mais pequenos – Timor, Portugal, incluindo a própria CPLP ainda com problemas de unidade e de fraternidade. Em vez de um referendo sobre uma monarquia democrática e multimilenar, o povo viu-se simplesmente confrontado com a única opção de votar numa ou para uma república democrática à imagem e semelhança de outras com problemas análogos aos da Sociedade das Nações e da própria ONU.   O que há de caracterizador do povo timorense ou da 1ª Nação do Século XXI, com a conivência da ONU e de grupos do Estado e de sectores da sociedade civil – identidade, cultura, línguas locais e oficiais (Tétum e Português) – está a ser ameaçado por essas forças invisíveis.untaet060801

4. A entrada de Portugal na ONU enfrentou diversas dificuldades, desde a problemática de colonização e colonialismo ao fascismo e à ditadura. Portugal não teria passado por essas dificuldades se, tal como fizeram as outras potencias colonizadoras ou colonialistas, tivesse procedido à criação da actual CPLP, constituindo estatutos de Estados autónomos ou independentes. Não valeu a argumentação perante a ONU de que “Portugal é do Minho a Timor”. Não sendo a questão da colonização, o fascismo ou a ditadura teriam constituído dificuldades para a entrada na ONU? Não existiriam análogos vícios políticos nos outros Estados já membros da ONU?

4.1 – A adesão de Timor L/L à ONU não só não teve dificuldades como foi logo no 4º mês a seguir à independência nacional (27set2002). Parece natural e evidente  a adesão: é um Estado criado com a supervisão da ONU, garantindo a conformidade com os seus princípios e normas e prolongando a assistência até a verificação de tal conformidade; é um Estado pequeno com os seus problemas internos controlados ou sufocados, ou adiados …

5. Apesar e tudo, a ONU continua a ser o único lugar onde se pode falar de todo e de todos, onde podem fazer ouvir a sua voz: os “grandes” e os “pequenos”, os “mais fortes” e os “mais vulneráveis”, os “mais ricos” e os “mais pobres”… Se um dia a ONU vier a dissolver-se, aparecerá outra organização congénere e mais consistente? “Não somos bruxos para adivinhar o futuro” e “já não estaremos vivos para ver o futuro”, mas podemos envolver-nos para que isso aconteça. Pelo menos que se mantenha o espírito e orientações das múltiplas DECLRAÇÕES, CARTAS e TRATADOS, etc., assinados sob a umbrela da ONU – Direitos Humanos.acl29out2013b

5.1 – A adesão de Timor L/L não apenas à ONU como à CPLP e à ASEAN e a outras organizações da região Ásia/Pacífico e do Mundo inteiro é uma questão de segurança e de sobrevivência nacional.  Mas tem um preço, implica condições emergentes do tipo de relação entre os diferentes estados: relações bilaterais ou multilaterais versus relações globais ou englobantes; relações estre os “mais” e os “menos”; relações de tendências hegemónicas ou de diferença na igualdade versus tendências de igualdade na diferença; relações dos “países do norte” versus os “países do sul”, etc.

6. O papel de Portugal na ONU poderia ser mais determinante se recuperar ou equilibrar a sua capacidade económica e financeira. A Europa perdeu o domínio de valores e de fontes de riqueza – matéria prima, energias renováveis, produtos acabados, patentes de inventividade, etc. O desamor pela Europa está a crescer. A quebra de confiança entre a Europa e a América reflecte-se na ONU.

6.1 – Entretanto, novas potências económicas – as BRICs – e misteriosas potências financeiras estão a crescer. A CPLP está a crescer: e, com ela, também Portugal? Traumas de colonização/descolonização ainda dificultam as interrelações/interações entre os Estados da CPLP. O Fundo Petrolífero de Timor garante a sua autonomia económica e seu superavit financeiro. Mas, quando terminarem os recursos petrolíferos? O país revela clara insuficiência de Quadros Técnicos para a exploração dos recursos naturais existentes e para criação de novas fontes alternativas de riqueza.

7. Um dos problemas que se coloca ao nível mundial e também da ONU são os países cuja estratégia de afirmação interna e internacional se baseia ou integra o factor religioso ou de religiosidade. A separação entre a Religião e o Estado nos países ditos modernos e democráticos em que medida pode contrabalançar esta situação? Entre os factores políticos, ideológicos e outros, a confusão entre separação e distinção entre Igreja e Estado representa a base oculta dos problemas dos primeiros cinco anos de independência e a crise nacional (timorense) em 1986. Qual a responsabilidade da ONU neste contexto?

8 – “O imprevisto está à espera de uma oportunidade”. Há sinais de que a Europa não está controlar o imprevisto. E a ONU?

8.1 – Apesar das dificuldades naturais de um país que recomeçou do zero, da sua inexperiência, da carência de recursos humanos qualificados, cremos que o PED estatal 2011-2030 e o PED 2002-2050 podem representar uma forma de prevenir o imprevisto (PED – Plano Estratégico de Desenvolvimento).

9. Uma esperança: na ONU, como também noutros lados, “há pensadores profundos”.

10 – Um alerta ou uma questão: qualquer organização de união de nações e Estados que não se baseie fundamentalmente na UNIÃO/COMUNHÃO DE AFECTOS poderá sobreviver por muitos anos?

10.1 – A comunhão de afectos que historicamente  unia os diferentes reinos de Timor parece-nos que entrou em crise desde a guerra civil e fratricida de 1974. Há, porém, sinais de que cada Reino (Uma Liurai), cada Suco, cada Knua, cada grupo familiar, estruturas tradicionais que têm vindo a ser substituídas por formas ditas modernas/modernizadoras de Distritos, Municípios e Freguesias, estão a reconstruir as suas Casas Sagradas e, à volta delas, a sua História e identidade, os seus valores e cultura, a sua religiosidade e visão, esperando que venham a ser as referências fundamentais do desenvolvimento de uma nação apenas aberta ao Mundo como criadora de um Mundo exemplar e sustentável.

AlbertoAraújo

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Sobre timordi

50-60 em Escola Salesiana de Lahane, Colégio de Maliana, Seminário de Nossa Senhora de Fátima em Dare, Dili, Timor L/L. 1960-1965 em Macau, Seminário de S. José. 1966-1973 em Same, zona Sul de Timor L/L. 1973-1983 em Roma, LIcenciatura em Filosofia e Curriculum de Doutoramento em Filosofia na Universidade Gregoriana. 1983 em Portugal, projecto de vida - Filosofia, professor, Curriculum de Mestrado em Filosofia, Fundação e Presidente da Associação Timorense (AT) entre 1983 e 1985 (criada com objectivo particular de Espaço de Diálogo e de Formação de Quadros Timorenses na Diáspora e no Interior - Sítio: wp.timor-diaspora.com/wp-login.php). Membro da Comissão Política do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT). Organiza e participa nos Encontros e Conferências de Vila Moura (Algarve, Portugal), Melbourne (Austrália) Darwin (Austrália). Lecciona Filosofia no Seminário Maior S. Pedro e S. Paulo em Fatumeta, Dili (Timor L/L) entre 2000 e 2002. Na sequência da dissolução do CNRT em 2002, opta por desenvolver actividades na Diáspora - Defende uma Política de Diáspora; cria Assoicaição Apoio à Diocese de Baucau (Sítio - http://aadb.home.sapo.pt); organiza a comemoração na Diáspora do 10º Aniversário da Independência de Timor L/L; coordena o Grupo COCC 2012 (Comissão Organizadora de Conferências e Congressos com início de actividades em 2011/2012. Com a COCC 2012 organiza o Primeiro Congresso de Sociedade Civil de Diáspora da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e a Lusofonia.
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